Da Fresta

6.2.07

Pequenas sobreviventes do tempo

Por Patrícia Gomes
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O século XXI mal chegou e já tem características bastante específicas. São aparatos tecnológicos, cada vez menores e com mais funções, automóveis e todo o tipo de aparelhos que se valem dos avanços da microinformática e da microeletrônica. Nesse mundo marcado também pela globalização que encurta tempo e distância, tudo o que é antigo tende a desaparecer, certo?
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Errado. Prova disso são as pequenas profissões presentes nas primeiras décadas do século XX que ainda dão o ar de suas graças. É verdade que daquele tempo, muitas não resistiram às novas exigências do mundo moderno e desapareceram. Outras estão quase lá. Mas algumas chegaram até se fortalecer.
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Profissionais como o tripeiro – que tem de lidar com a concorrência dos grandes mercados e com a fiscalização da vigilância sanitária – a professora de datilografia, o médico de bonecas e o lambe-lambe engrossam a lista dos ofícios que jazem com dificuldades de se adaptar em um mundo tomado por necessidade de inovações tecnológicas. No Largo do Machado, esporadicamente, o lambe-lambe Pedro monta seu equipamento e tira fotografias. Recentemente, ele foi elevado a patrimônio cultural da cidade e agora, para aumentar a renda, cobra para dar entrevistas.
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Outros ofícios, no entanto, resistem ao tempo. Neste rol pode-se encontrar o reformador de pianos, o vassoureiro, o empalhador de cadeiras e, é claro, a profissão mais antiga do mundo, a prostituta.
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A professora de datilografia
Dona Olga Rocha tem 70 anos e é professora de datilografia desde 1957, quando abriu o Curso Olavo Bilac em Marechal Hermes. Há dois anos seu curso está abrigado em uma construção, perto do centro histórico do bairro. Tem uma ante-sala, uma sala e “um pedacinho lá atrás”, como explica dona Olga.
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A sala do curso de datilografia foi tomada, há oito anos, por microcomputadores, mas ainda abriga quatro máquinas que ficam cobertas, esperando por alunos. “Esse ano (2006) eu não tive aluno. Ano passado eu tive... três”, relata a professora com certo pesar. Ela lembra do tempo que mal tinha tempo de almoçar: “Já cheguei a ter 100 alunos por dia”, diz, orgulhosa, dona Olga. Nessa época, tinha 16 máquinas e dava aulas de 8h às 22h todos os dias.
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Um interessado a aprender a datilografar passa, em média, três meses no curso. As aulas são diárias, a duração de uma hora e o custo de R$50. Dona Olga explica que datilografia depende de vocação “tem gente que bate muito bem, tem gente que não”, mas que qualquer um pode se sair bem com um pouco de dedicação. “Datilografia não são os dedos, é a cabeça”, resume.
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Até a década de 80 a demanda era grande porque os concursos públicos da Polícia Civil, de escrivão de cartório, do TRE e do Banerj tinham provas de datilografia que exigiam rapidez e poucos erros. Olga define sua quase inexistente clientela hoje: “Quem mais procura são pais que tiveram aula comigo e gostariam que seus filhos aprendessem. Mas eles acabam não voltando”. Se alguma de suas máquinas dá problema, dona Olga recorre ao único técnico mecanógrafo que conhece, também morador de Marechal Hermes.
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A professora acha “uma pena” que não haja mais interesse em aprender datilografia e considera que os profissionais que agora estão se formando se sairiam melhor em suas atividades se soubessem datilografar. Mas, lamenta-se: “Hoje em dia, as pessoas se ofendem se a gente diz que seria bom fazer um curso de datilografia”.
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O serviço de datilografia no curso, hoje, se resume a escrita de declarações e preenchimento de formulários ou cheques. “O Ministério do Trabalho, ali na frente, tem um carnê que o empregador nunca coloca o número um no espaço certo. Eu já até sei. Nem cobro pelo serviço”. Precavida, dona Olga diz que vai diversificar o curso: “Já temos informática e agora vamos abrir um curso de imobilização ortopédica porque o Carlos Chagas (Hospital Municipal em frente) está exigindo”.


O Reformador de Pianos
Em francês, essa profissão leva o nome de lutier e, em português, por falta de tradução, é reformador de pianos mesmo. Muito comum na época em que o Rio de Janeiro mantinha um circuito de salões e recepções para a alta sociedade, hoje os profissionais que se dedicam a consertar pianos são circunscritos apenas ao mundo dos músicos.
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Um exemplar desta raridade é o senhor José da Gama, proprietário de uma oficina de pianos em Quintino Bocaiúva, bairro do subúrbio carioca. Trata-se de um sobrado do início do século XX, de paredes descascadas e de pé-direito alto em frente à estação de trem. O letreiro “O Rei dos Pianos”, já sem cor, não é capaz de revelar o espaço que a loja, fundada em 1938, esconde. No primeiro ambiente que, à primeira vista, parece ser o único, 10 pianos se encontram dispostos de maneira aleatória e não há distinção entre os reformados ou por reformar, entre os que estão ali para serem vendidos, alugados ou entregues a seus donos.
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Por um estreito corredor que se revela bastante comprido, se vêem salas onde são feitos trabalhos específicos. A primeira é a administração. Depois vem outra onde se conserta o maquinário do piano e uma terceira onde se enverniza as partes de madeira. No fim do corredor, percebe-se um cofre e uma máquina de bater ponto que, conforme garante Wallace Matos, administrador da loja, “não são usados há muito tempo. Estão aí só por estar”.
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O corredor desemboca em um galpão onde aproximadamente 50 pianos desmontados sofrem todo o tipo de reparos. À direita, uma outra sala, também apinhada deste instrumento, mantém a atmosfera escura de toda a loja. Ao todo são 10 funcionários. O senhor José da Gama diz que, como não tem lugar onde se aprenda o ofício, “um ensina para o outro” e aponta para um rapaz que segue o afinador a tira-colo.
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O lutier de Quintino conta que passou metade de sua vida – 32 de seus 63 anos – n’O Rei dos Pianos, mas lembra quando jovem, também se dedicava ao instrumento. Não que ele tenha aprendido a tocar piano na infância, mas porque trabalhou numa transportadora de pianos antes de ingressar na loja. Seu filho Marcelo também trabalha na oficina: “Desde menino eu ando por aqui!”.
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Seu José da Gama diz que, há 50 anos, o ramo de pianos era mais lucrativo: “Hoje o teclado e o piano eletrônico têm mais recursos e não precisa de tanto esforço”. Ainda assim, orgulha-se de tocar um negócio “100% artesanal” e cuja maior publicidade é o famoso “boca a boca”. Para o lutier, o segredo da sua loja está na credibilidade e na verdade. “O meu serviço é de qualidade porque meus produtos também são. Gerações de famílias são clientes nossos”.


O empalhador de cadeiras
O empalhador de cadeiras Luis, que tem um ponto fixo no Largo do Machado, garante que sua profissão não está acabando. “Logo ali tem outro”, e aponta para um outro senhor, sentado a menos de 20 metros, na mesma calçada. Gaba-se de ter dado entrevista a uma revista que é distribuída gratuitamente pelo Museu da República e que teve uma versão em inglês enviada aos Estados Unidos.
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Segundo Luis, empalhador há mais de 20 anos, o Rio de Janeiro é o estado que mais tem empalhadores de cadeiras. Ele trabalha na rua e diz que sempre tem serviço. Quando perguntado se sua profissão foi mais lucrativa no passado, ele diz que sim, mas não pode se queixar, porque sempre tem cliente. Para uma cadeira apenas com o assento a ser refeito, o freguês paga, em média, 60 reais. Se o encosto também precisar ser recuperado, o valor dobra.
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Luis leva todos os apetrechos que precisa em uma maleta não muito grande. Lá ele tem fios de diversas espessuras e alicates. Trabalha ali na calçada mesmo e, no final do dia, guarda as peças que está reformando “num cantinho aqui perto. Depois eu vou para casa!”.


O Hospital Mundial de Bonecas
O hospital de bonecas funciona na rua que beira a linha principal de trem do Rio de Janeiro e fica entre as estações de Oswaldo Cruz e Madureira. No balcão, a senhora Elizeth Rosa, 71 anos, recebe as bonecas para seu marido e seus filhos consertarem. O negócio foi aberto há 50 anos pelo seu esposo e um amigo, já que ambos trabalhavam em uma conhecida fábrica de brinquedos.
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A oficina fica no final do terreno que, do balcão, parece ser bem grande. “Aquilo é uma bagunça, não tem nada de bonito pra ver não”, encerra Elizeth, a possibilidade de uma visita ao ateliê. Lá, seu marido substitui peças quebradas, coloca cabelo, olhos e, com a ajuda da filha, restaura pinturas.
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Dona Elizeth conta que já chegou a ter quatro empregados, mas hoje o trabalho é feito em família. Ela lembra que, no passado, havia mais serviço. “Hoje a gente recebe umas cinco freguesas por dia”, mas garante que elas ficam muito satisfeitas em ver o resultado. No panfleto do Hospital, em meio aos serviços que se presta, lê-se “Não deixe um brinquedo que você ganhou com tanto carinho cair no esquecimento e se acabar. Traga que nós consertamos para manter viva [sic] as boas lembranças”.
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A reformadora mostra, orgulhosa, uma condecoração que seu Hospital Mundial de Bonecas recebeu da Câmara dos vereadores do Rio de Janeiro em abril de 1988. Já amarelado, o documento diz: “O delicado e artístico trabalho a que se dedicam Elizeth e seus familiares têm um elevado alcance de cunho psicológico e social, o que os torna merecedores desta proposição”. A homenagem chama o serviço do hospital de um “valioso trabalho” que “serve ao apego de pessoas idosas e ao sonho e imaginação de crianças e jovens que amam e vivem esses brinquedos, ao encher de afeto e fantasia a vida de muitas pessoas”.


O Vassoureiro
“É o vassoureiro. Olha a vassoura aí, freguesa! Tem piaçava, tem de pêlo, tem rodo, tem limpador de teto”. É Marco Antônio de Azevedo, 31 anos, quem interrompe o silêncio de uma pacata rua de Vila Valqueire com esse grito que tem sido ouvido por gerações e ainda hoje é comum nos bairros do subúrbio carioca.
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Marco Antônio Azevedo é vassoureiro há três anos, tem a fala polida e calma. Ele diz ter sido levado para o ‘ramo das vassouras’ por um amigo que lhe explicou como fazer, onde comprar e até como amarrar as vassouras do método mais prático e seguro. Outro fator determinante para ter escolhido a profissão foi o lucro rápido. De cabeça, apresenta suas contas: “Se eu trabalho 26 dias no mês, de segunda a sábado todos os dias, ganho, em média R$1200”.
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Fora o que chama de “peças finas” – os limpadores de teto, a vassoura de pêlo de cavalo e o rodo – Marco Antônio carrega 24 vassouras de piaçava por dia e precisa de quatro horas para vender todas. “Às vezes mais, às vezes menos, mas nunca vou pra casa depois das 14h”, conta o vassoureiro, que sai de casa às 6h, vai à fábrica comprar material e começa a vender por volta das 8h ou 9h.
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Evangélico convicto, Marco Aurélio diz que o ofício lhe deu uma dor insuportável na coluna, mas garante que sua fé lhe curou. O vassoureiro confessa que não pode reclamar do salário e garante que tem sempre alguém precisando de uma vassoura e, por isso, “tem muito vassoureiro por aí”. Ele se mostra contente com a profissão, mas conta que quer fazer uma faculdade: “O meu dom é o de vendas. Quero fazer engenharia ou alguma coisa ligada a vendas mesmo”.
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2.2.07

"Vambora que essa porra vai cair!"

Relato de um famigerado final de semana de boatos e chuvas no Rio de Janeiro
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Por Carolina Peixe
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Enfim chegou o tão aguardado fim de semana do dia 23 de dezembro de 2006. Para os lojistas, a esperança de bons negócios logo no fim de semana que antecederia o Natal. Para os curiosos, a confirmação da suspeita do desabamento do Shopping Tijuca.
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Foi um final de semana carregado de chuvas de verão, aqueles típicos aguaceiros de parar a cidade, mas que duram, no máximo, duas horas. A queda de energia no shopping havia se tornado algo freqüente naquela semana. Mas agora era sexta-feira, dia 22 de dezembro, véspera do possível desabamento. Sendo assim, todo o cuidado é pouco. A cada queda de luz, crescia aquele burburinho, as pessoas se perguntando se aquilo tinha algo a ver com a tragédia prevista, olhares desconfiados para qualquer rachadura inocente encontrada nas paredes. Todo o cuidado é pouco.
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Foi então que a luz caiu de vez no Shopping Tijuca. Primeiro, aquele breu total. A seguir, foram acionadas as luzes de emergência, que mal iluminavam os corredores. Pronto: era o que bastava para os freqüentadores do lugar desabafarem o medo que camuflavam há semanas.
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Dentro de uma loja de roupa feminina, havia apenas um cliente: um homem que entrara para comprar uma agenda para a esposa. A sub-gerente da loja o atendia quando faltou luz. Lá de cima, no estoque, pôde-se ouvir os gritos de desespero da gerente e de uma das vendedoras. O ar condicionado da loja havia desarmado e, com isso, fez-se um estrondo pavoroso. A vendedora, assustada, arriscou descer a escada de metal que levava ao salão. Foi aí que passou a gritar ainda mais, pois alegava estar levando vários choques provindos da própria escada. Quando finalmente conseguiu chegar ao destino desejado, ela agarrou sua bolsa como quem agarra uma criança em apuros, volta-se para o homem, ainda sendo atendido normalmente pela sub-gerente, e lhe recomenda com vigor: “Vambora que essa porra vai cair!”. E assim dispara a correr em direção à porta. Metade das vendedoras não contêm o riso e a outra metade corre para segui-la, afinal, todo o cuidado é pouco. A sub-gerente,que não queria perder a venda, tenta acalmar o único cliente da loja, agora pasmo e aterrorizado.
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O incidente no shopping era só o que faltava para o dia 23 ficar ainda pior para quem dependia de comissão nesse Natal. O sábado no shopping Tijuca amanheceu vazio e assim permaneceu até o último minuto de se fechar as portas. As lojas tentavam animar suas vendedoras colocando músicas de funk carioca para “levantar o astral”, mas a preguiça foi inevitável. Quem passava em qualquer andar via vendedoras sentadas no chão, vendedoras alisando seus cabelos, todas colocando várias conversas em dia. Não havia quase ninguém para atender, quase nada a fazer. Era sentar e esperar os corajosos, aqueles poucos tijucanos que não ligavam para o tal boato. O resto da Tijuca preferiu não arriscar. Afinal, todo o cuidado é pouco.
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30.1.07

Um teclado, uma tela e muito amor pra dar

Diante da dificuldade que é encontrar a tão sonhada cara-metade, resolvi testar os sites de relacionamento para conferir de perto como funcionam os encontros virtuais. Quem sabe está aí uma boa opção?
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Por Giuliana Ciminelli
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Munida de minhas armas, as duas mãos que Deus me deu e a internet banda larga que algum outro santo inventou, fui à caça. A primeira tarefa é preencher o perfil que existe nesses sites. Há perguntas sobre tudo. Orientação sexual, idade, endereço, o que faz da vida, quanto ganha por mês, o que gosta de fazer nas horas vagas, altura, peso, cor dos olhos, cabelos, cachorros, papagaios e periquitos. E não pára aí: você ainda tem que elaborar um relatório altamente minucioso sobre o tipo de pessoa que procura. Mas, uma coisa não há como negar: a parte mais importante deste extenso perfil é a foto!
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Nas primeiras 72 horas, meu perfil ainda estava sem ela e era visto por apenas 20 pessoas. Porém, depois que a foto foi aceita pelo site (as imagens são analisadas para conferir se não há o que eles chamam de “conteúdo impróprio”), como por um passe de mágica, o número de visitas simplesmente dobrou. Prova de que Vinicius de Moraes sabia muito bem o que se passava na mente masculina quando pediu desculpas às feias e reafirmou a importância da maldita beleza.
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Depois de analisarem quem é você, ou pelo menos o que você diz ser, os interessados podem enviar um correio eletrônico ou, se os dois estiverem online, chamá-la para uma conversa de mensagens instantâneas. É aí que começam as bizarrices.
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O primeiro a me escrever era um homem de 31 anos, solteiro, profissional de informática e que afirmava estar em busca de relacionamento sério e duradouro com uma mulher interessante. Deixou até telefone celular para contato. Sua descrição física era digna de um Richard Gere:
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- Um estilo próprio, fashion e também garotão, rs!!! Creio ter um corpo legal, não sou saradão, porém tenho o meu charme. Sou claro, minha origem é italiana. Gosto do meu rosto e tórax. Procuro me tratar, curto moda e pratico esportes. Cuido da pele e dos cabelos, sem exageros. Estou bronzeado no verão e gosto de um perfume marcante. E aí, que tal me conhecer ao vivo?!
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O próximo da lista faz parte de um grupo sempre presente em sites de encontros: o dos casados. Auto-intitulado gato-casado-especial, pai de dois filhos, casado há oito anos não prometia mundos nem fundos, mas apenas momentos de diversão. “Pretendo continuar no meu casamento. Não quero atrapalhar a vida de ninguém e não quero que atrapalhem a minha vida”, diz ele. Conversamos durante alguns minutos por mensagens instantâneas. Com humor refinado, ele chegou a desconfiar da minha intenção. “Você é jornalista, é?”, indagou.
Obviamente desconversei e esperei o momento certo para fazer a pergunta crucial: o que um homem casado faz na internet à procura de outras mulheres? Ele, sem mais-palavras, respondeu o que todos respondem.
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- A rotina é uma praga que acaba com qualquer casamento. Adoro minha família, mas confesso que o casamento anda muito chatinho, entende?!
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Tentei arrancar mais detalhes sobre os problemas conjugais, mas ele afirmou que só me contaria pessoalmente e aproveitou para fazer um convite para um almoço. Ficou para uma próxima oportunidade.
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Além dos pretensiosos e os compromissados, você também encontra com facilidade o time dos mala-sem-alça. Verdadeiras maletas que, em cinco minutos de conversa, juram que vão te amar pela vida inteira, dar casa, comida, roupa cara e lavada. Cariocaromantico_23 era um desses. O moço, de 33 anos, advogado, e morador da tradicional Copacabana me alugou durante uma hora. Implorou pelos meus telefones, queria me encontrar àquela hora. Me fez jurar três vezes que ligaria para ele. E, para finalizar, mandou uma mensagem que jamais vou esquecer.
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- Se acreditar em destino, me ligue. Se não acreditar em destino, me ligue mesmo assim! – afirmou em tom de apelo desesperado.
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Mas o que é irritante de verdade são as frases e expressões repetidas. Quase todos são “de bem com a vida” e estão “à procura de bons momentos”. Há os que nem mesmo se dão conta de já terem lhe enviado uma mensagem, e mandam mais uma vez e-xa-ta-men-te o mesmo texto. É o caso de Lover-from-miami. Executivo americano, 32 anos, diz que busca namoradas pela internet por causa da vida atarefada. Imagino que, com tantos compromissos, ele tenha preferido preparar uma declaração de amor “padrão”.
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- Eu vi seu anuncio no internet e pensei que eu iria dar uma oportunidade para te escriver. Voce e muita linda e eu sei que voce ja recebe muitos emailes. Mas eu acho que você sabe que a qualidade e mais importante do que a quantidade. -afirma ele, que ressalta não ter histórico de problemas mentais, alcoolismo nem de uso de drogas.
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Mas há também os objetivos e que vão direto ao ponto. Estes, em via de regra, estão apenas interessados em sexo. Mago409, 46 anos, 1,76 metros de altura, 73 quilos, e que agora está sem barba, se diz muito sincero. Já na segunda linha da mensagem, afirma gostar muito de fazer sexo e em qualquer lugar, seja “...na praia, mato, carro, na rua, festa, show, lugares públicos, etc.”
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Entre os mais tarados, tem também os contadores de história. Gatao-meiaidade me escreveu um relato sobre uma de suas experiências sexuais.
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- Nota-se que é bem esperta e inteligente! Sei que estou bem acima da idade que deseja porém, sou praticante do KAMA SUTRA há 20 anos e rara são as vezes que consigo encontrar alguém que deseja fazer AMOR usando as técnicas do kama sutra. Há duas semanas atrás, sai com uma menina de 24 anos. (...) Na realidade, ela estava esperando o noivo dela e eu, tomava meu choppinho preto e comia mexilhões e estava na minha! Como percebi que ela estava agitada, perguntei se não queria me acompanhar no chopp e ficamos conversando até que percebemos, que o cara não ia chegar então saimos e fomos para praia da Barra e no final acabamos na cama.(...) O que quero lhe dizer com esta história é que a idade, neste sentido, não interfere em nada até porque, quando temos alguém que seja compatível e gosta de fazer sexo em forma de prazer, isto só faz bem tanto para saúde como forma também de terapia. (...) Um beijo e uma mordiscada na pontinha do lóbulo de sua orelhinha! Fique com DEUS!
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Depois de tudo isso, não deu para encontrar a “metade da laranja”. Mas, pelo menos, boas risadas essa aventura rendeu!
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29.1.07

Joy Garrido: “Uma boa atmosfera pode ser criada com poucos recursos”

Por Rafael Brito

Joy Garrido é uma arquiteta reconhecida nacionalmente. Formada pela Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, ela trabalha há 20 anos atuando principalmente na área de interiores, tendo realizado inúmeros projetos não só em residências, mas também nos setores comercial, de educação e saúde.

Também teve a oportunidade de realizar, recentemente, um projeto de modificação de uso de um hotel para apartamento com serviços. É presença constante nos principais eventos na área de decoração nos principais eventos na área de decoração do país, como Casa Cor, Metro Design, Mostra Artefacto, além de exposições no Rio Design Barra e Leblon e ainda no Fashion Rio, no Museu de Arte Moderna (MAM), onde tem realizado há dois anos o lounge do Jornal do Brasil.

Vamos conhecer um pouco mais sobre a carreira desta profissional, que garante ser necessário apenas um pouco de sensibilidade para transformar um ambiente em um lugar harmonioso e equilibrado.

Além de participar de grandes eventos de decoração, você também dá paletras em diversas universidades...

Joy: Nos últimos, tenho atuado muito no meio acadêmico, oferecendo palestras, além de dar aulas de Pós-Graduação na Universidade Estácio de Sá e no Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). O que não deixa de ser bastante importante para a minha carreira, pois é a chance que eu tenho de estar em contato com os jovens, além de trocar idéias e aprender muito com eles.

Seu nome não é só conhecido na área residencial, mas também em outros setores, certo?

Joy: Na área de Saúde, atuo há cinco anos com projetos de reformas do INCA (Instituto Nacional do Câncer), me tornando também a responsável pela mudança do Hospital Samaratino. Lá, executei os projetos da Capela Ecumênica, da recepção, do CTI, da Unidade Coronariana, do quatro pavimentos de Internação (Hotelaria) e demais áreas. Sem falar também nos meus projetos para a Clínicas São Vicente, onde idealizei o Centro de Medicina Integrada (chefiado pelo Dr Sergio Abramoff) e a Clínica Huntington de Reprodução Humana, em Ipanema.

Trabalhar com a harmonia desses ambientes, considerados feios e tristes, é um desafio?

Joy: Sem dúvida, é um desafio enorme proporcional às pessoas que estão passando por problemas de saúde – geralmente, deprimidas – um pouco de beleza de interiores dando-lhes um alento ao seu sofrimento.

Qual foi o evento de decoração mais marcante da sua carreira?

Joy: Geralmente, é sempre o último, pois o que eu acabo de participar é aquele que mais me mobiliza. Neste caso, o Casa Cor 2005, onde idealizei o ambiente “SPA em Casa”.

Quais seriam os primeiros passos para projetar a nossa casa, de forma que se torne o nosso espaço de relaxamento e lazer?

Joy: O item primordial é conhecer bem o cliente e tentar compreender quais são os seus desejos e carências.

É possível criar um ambiente confortável com residências muito simples ou construídas no improviso, como em barracos dentro de favelas?

Joy: Sim, é claro. Não depende de fatores econômicos. Claro que ajuda, mas não é fundamental. Uma boa atmosfera pode ser criada com poucos recursos.

Há quem diga que animais são componentes essenciais para a harmonia do nosso lar...

Joy: É muito saudável o convívio com os animais domésticos, mas diria que é essencial.

Quais os cuidados básicos que devemos ter para que o nosso lar se torne um ambiente acolhedor?

Joy: Deve-se, antes de tudo, amar muito a nossa casa e tratá-la com muito carinho, pois dessa forma ela automaticamente nos devolverá harmonia e bem-estar.

A televisão no quarto de um casal é um elemento negativo?

Joy: Não é um elemento agregador. Não recomendo. Mas não precisa ir ao pé da letra e chegar ao ponto de impedir que se coloque a TV no quarto de um casal.

O que você pensa sobre a idéia do “loft”, um local mais informal com menos paredes?

Joy: Acho muito positiva. Tenho procurado adotar esse conceito nos meus projetos atuais. O resultado sempre é de mais amplitude;

Quais são os seus projetos mais futuros?

Joy: Se Deus quiser, um hotel!

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28.1.07

Entrevista com Wilson das Neves


CARNAVAL2007
Por Yana Vale, do Rio de Janeiro

Fui orientada que uma Entrevista Ping-Pong era para ser rápida. Quinze minutos, no máximo, era tempo suficiente de conseguir respostas para as poucas perguntas que estavam digitadas no papel. Claro, me preparei. Não ia levar nada rabiscado parecendo um hieróglifo com a caneta que tinha acabado de comprar no trem. E o senso do perfeccionismo virginiano?

Com um terno azul “À La Roberto Carlos com TOC no Especial de Fim de Ano da Rede Globo” e sob um sol escaldante, lá estava eu à procura da casa do “Seu Das Neves”. Para uma jovem sambista de Padre Miguel que foi estudar Jornalismo, ter a oportunidade de entrevistar o instrumentista, cantor e compositor Wilson Das Neves é muita responsabilidade, por isso checava a todo instante dentro do táxi se as perguntas estavam, no mínimo, perfeitas. E ainda não era o suficiente.

Das Neves tem no currículo trabalhos com Clara Nunes, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Alcione, Beth Carvalho, Eumir Deodato e ainda apresentações com Elis Regina no Olympia de Paris, e ao lado do maestro Copinha no Cassino Monte Carlo. O baterista oficial de Chico Buarque tem recebido críticas positivas pela sua atuação na turnê Carioca que marca a volta aos palcos do compositor de “Morena de Angola” depois de sete anos afastado. Wilson e Chico fazem um dueto na música “Grande Hotel”. Eu?! Nervosa? E o dinheiro gasto nas aulas de Yoga? C-o-n-c-e-n-t-r-a-ç-ã-o... M-a-n-t-r-a-s... P-e-n-s-a-m-e-n-t-o f-o-c-a-d-o n-o a-z-u-l p-a-r-a a-l-i-v-i-a-r a-s t-e-n-s-õ-e-s... Opa! Azul é a cor do meu terno! E só estou com ele porque vou entrevistar... Ai... O Wilson Das Neves. Eu já estava esquecendo... Quase consegui. Controle da respiração e da ansiedade por R$ 100, ao mês... Sei... Isso está mais para um golpe “made in Bangladesh”.

A menos de um mês para o Carnaval e dançando ao som do DVD Gafieira de Zeca Pagodinho, comecei a refletir sobre as peculiaridades entre samba enredo e samba de raiz, precisamente na música “Beija-me”. Seriam cinco perguntas objetivas em um quarto de hora. Mas não resisti. Desculpe, o bate-papo foi mais forte que eu. Nas próximas linhas vocês vão saber o porquê.

Quais as diferenças entre samba enredo e samba de raiz?

WILSON DAS NEVES: Bom, eu posso te explicar o seguinte. Há duas diferenças até de samba enredo. Porque o samba enredo há anos atrás se tinha o título do enredo. Por exemplo, Dom João VI. Então o compositor ia ter que buscar a história de Dom João VI para escrever. Hoje é diferente. Hoje o samba enredo eles lhe dão uma sinopse, então você tem que contar aquilo que eles querem que você conte. Até o samba tem que seguir aquela norma da sinopse. Que são os quadros que estão apresentando. Então, já aí existe uma diferença de samba enredo para samba enredo. E samba de raiz é o samba comum. Samba de raiz pra mim é o samba comum. Bem feito, lógico. Cartola e Guilherme de Brito, Nelson Cavaquinho, Sinhô... Vem de lá. É tudo raiz.


Esse pessoal novo como Dudu Nobre pode ser considerado sambista de raiz?

WN: É o pedaço da raiz que vai continuar nascer, vai ficando. Samba de raiz pra mim é o samba bom, é a música brasileira. Não importa onde ela é feita e como é feita. Se ela é boa, é uma música de raiz.


Existe uma diferença técnica na composição de um samba enredo e um samba de raiz?

WN: O samba enredo atualmente você tem que contar aquela história e o samba de raiz você é livre. Você tem o seu pensamento, você faz uma melodia, o parceiro põe uma letra, ou então você faz melodia e letra. Tudo isso vem de repente. Já é uma coisa descompromissada. Samba enredo tem compromisso com a história. E no samba comum que eles falam samba de raiz você não tem compromisso com nada. Você fala o que dá na sua imaginação. Aí é a imaginação do poeta, a parte poética.


Qual é o passo-a-passo para a criação de um samba enredo e um samba de raiz?

WN: Você senta com a intenção de fazer aquela história do samba enredo, seguindo aquela sinopse. Você tem um compromisso, você não pode falar uma coisa antes da outra, você tem que contar a história diferente dos que contaram antigamente. Você conta de acordo com o que está acontecendo na Avenida. E o samba comum não. É um descompromisso. Você se inspira e vem a inspiração do poeta com o músico. Eu tenho parceiros que fazem a música juntos, outros dão a melodia e ele banha a letra. Eu faço assim. Às vezes pego letra para botar melodia. E eu não tenho uma opinião formada. Agora, o samba enredo atualmente tem. Você tem que falar aquilo que eles querem que você fale. Senão, não interessa. Não adianta. Senão, você foge. Tem que falar de acordo com o que está acontecendo. Os quatro primeiros que vêm na frente, que vêm no meio... É um compromisso. Samba de raiz que eles chamam não tem compromisso.


É pura inspiração?

WN: Pura inspiração. Tem gente que fala de coisas engraçadas. Aí é outra história. Aquela humorística, a parte de crítica, de charge que eles fazem nos sambas. Mas não tem uma concepção. Quando é samba de raiz que se diz, é assim: ele pinta, ele nasce.


Qual a origem do samba enredo?

WN: A origem do samba enredo é aquilo, você tinha que contar uma história. No princípio das escolas de samba faziam um samba e todo mundo ia naquela. Como são os blocos hoje. Depois começou a se pensar a homenagear uma figura. Já se tem que fazer um samba para aquela figura. É a tal época que o compositor tinha que ir à Biblioteca Nacional procurar livros para ver a história e tal. A coisa foi evoluindo e hoje você tem que contar o que está acontecendo. Essa é a origem. Você tinha que contar a história, falar do enredo. Antigamente se fazia um samba e o enredo era de acordo com o samba. Agora a coisa mudou. O enredo era feito pelo samba. Eles apresentavam o samba antes de pintar esse esquema de processos decisivos de mudar, de homenagear uma figura, homenagear quem... Aliás, tem muita gente até que nem merece ser homenageado e “tá” sendo. Quando se legalizou a escola de samba, a função da escola de samba era cultura. Getulio Vargas que deixou. O presidente é que liberou isso, mas com aquela condição: Tinha que falar da História do Brasil. E ele liberou com essa condição. Fizeram lei e tal. A escola de samba é obrigada a falar da História do Brasil que é para educar o povo. Mas depois foi mudando. Hoje você homenageia qualquer coisa... O Egito, não sei o quê... que não tem nada a ver com a gente. Mas tudo é cultura. Se fizer um bom Carnaval com tudo explicadinho para que as pessoas entendam, “tá” valendo.


Então o senhor está dizendo que o samba enredo hoje tem uma participação
secundária em relação à antigamente?

WN: Não, não é secundária. É acompanhar a época. E quem não fizer assim, não vai adiantar nada. Não adianta você ter sambas belíssimos que se tinha antigamente. Qual é a sua escola de samba?


Mocidade.

WN: Duvido você cantar o samba de três anos atrás. Você não lembra mais.


Lembro de 1985, Ziriguindum 2001.

WN: Mas aí é aquele negócio. A Escola é campeã, fica na idéia. É isso é que fica. Só os campeões. Os outros você não sabe. Agora antigamente não. Você cantava, lembrava... Você veja bem que o que faz sucesso com música de samba enredo são os antigos. Vai cantar Silas de Oliveira, vai cantar Monarco, vai cantar Paderinho da Mangueira, vai cantar essa gente. Porque os atuais você esquece. É descartável, né?

O que o senhor acha dessa repetição de sambas enredo nos Carnavais?

WN: Eu acho que a coisa “tá” muito parecida. Se você pegar um samba de determinada Escola, se você cantar o do ano passado um entra por dentro do outro e tudo fica a mesma coisa, parecido. Mas é a força das circunstâncias. Não tem saída. O negócio é fazer samba pequeno com um refrão forte, aí conta um pedacinho... O negócio é o refrão que levanta a Avenida. Tudo está entrando em função de alguma coisa e “tá” perdendo... A liberdade de Escola de Samba era uma coisa! Você ia mostrar, você não deixava nem eles verem o barracão que era para poder fazer uma surpresa. Então o negócio hoje é tudo comércio. Só quem não ganha dinheiro é o sambista que paga pra sair. Pouca roupa... E todo mundo ganha. “Tá” certo! Virou casa de negócio, mas daqui a pouco o componente também vai querer. E aí? A bateria, não sei quê também quer dinheiro e como é que faz?


É um problema que as Escolas têm que parar pra pensar.

WN: É lógico! Eles estão indo para um caminho “brabo”. É profissionalização. Se é profissionalização, assina minha Carteira e me dá no fim do mês.


Por enquanto essas pessoas que não recebem nada desfilam por amor à Escola, à camisa...

WN: Lógico, mas isso vai mudando.


Como surgiu e gerou o samba de raiz?

WN: É o samba comum, é o samba que vem lá do Lundu, aquelas coisas antigas... Depois veio o choro, o samba... Tudo é História do Brasil. Ninguém sabe. No fundo, no fundo apareceu trazido o ritmo. Porque o ritmo que define o que você está tocando. Você olha para o ritmo da música e você sabe se é samba, se é valsa, se é choro, se é frevo... Também o ritmo veio da África. E o samba tem muito a ver. Inclusive em Angola tem o “semba” que é parecido com o samba. Trouxeram pra cá.


Nós importamos essa canção.

WN: Como importamos a harmonia. Você importa o ritmo da África e a melodia e harmonia da Europa. As valsas, aquelas coisas... Mas o ritmo quem fez foi a África, que virou samba.


Qual a importância do samba enredo e do samba de raiz para o Brasil?

WN: Se ele contar uma história verdadeira, brasileira, que sirva de cultura já é muito importante. Que fique pra história! Porque esses sambas descartáveis, “Lê-lê-lê, Lá-lá-lá, Não sei o quê” não adianta não! Na minha opinião, eu acho que música é cultura. Você tem que falar o que você pensa. Você fala através da sua música. Tanto na letra como na melodia. Uma coisa casa com a outra e acaba virando uma história. Essa é a importância de ficar, né? Não é música descartável. Eu não vou falar o nome de artista nenhum aqui, mas é aquele negócio... Tem uns negócios aí que é fora de propósito e você é obrigado a ouvir. Mas, música é música... E a importância é virar história. Você pode falar no “Carinhoso” a vida inteira, do Pixinguinha. Vai falar em “As Rosas Não Falam” do Cartola a vida inteira por quê? Porque ela diz muita coisa e vale para a História e vale pra botar em livro.


Existe uma diferença entre tom, cadência, harmonia na hora de compor um samba?

WN: Eu vou dizer por mim, quando vem (inspiração), vem a melodia, vem o andamento, vem a harmonia tudo junto da cabeça de quem compõe. Não é uma coisa diferente. Você falou em cadência e eu pensei na cadência das Escolas de Samba. Também posso falar “tá” correndo muito. Os sambas estão virando marcha. Eles estão misturando o deslocamento com o andamento. Então pra levar a Escola rápido tem que correr muito. Isso é a cadência. Mas de música quando vem, vem toda. Quem faz música é assim.

Quem faz música então já tem ela na cabeça?

WN: Ela vem de repente. Eu acredito que venha de repente sim. Eu, por exemplo, as minhas melodias quando pintam na minha cabeça, eu pego um gravador e boto. Depois é que eu vou ouvir com calma pra ver, pra ajeitar e tal. Pintou uma melodia, me vejo assobiando alguma coisa, eu gravo. É assim. Tem parceiros que só fazem letra. Tem uns que fazem letra e música, mas tem gente que só faz melodia... O poeta começa a escrever e vem de repente. (...) Você tem que aprender alguma antes. Tem que se preparar para essa inspiração vir.


Até pra incrementar esse processo...

WN: Lógico! Pra você evoluir junto. Porque a vida é um negócio que a gente não sabe... Não vou dar nome ao boi, mas fica perdido aquele compositor, coitado, lá do interior que não sabia ler e nem escrever, mas tinha arte de fazer música. Disse que fazia as letras, né? E não sabia como é que ia dizer, não sabia o que tinha na mão... “Tá” hoje aí. Mas ele continua fazendo sucesso. (risos)
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9.1.07

Dentro do engenho, fora do Engenhão

Por Carolina Peixe,
Carolina Silva e Patrícia Gomes
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Quase diariamente os jornais fazem uma cobertura sobre o Pan 2007. As matérias batem na mesma tecla: obras atrasadas. Uma delas é o “Engenhão”. Quem passa em determinado ponto da Linha Amarela já pode avistar duas imensas estruturas de ferro por cima do estádio. Ao ver a empreitada ainda longe de terminar, pode passar um friozinho na barriga - “será que vai ficar pronto?”. Mas se a pessoa que passa pela mesma Linha Amarela for um morador do Engenho de Dentro, a pergunta talvez seja: “Em que isso tudo vai dar?”.

Fomos conferir, então, como esse bairro da Zona Norte carioca tem se comportado com a construção do que será o segundo maior estádio do Rio de Janeiro. Sem credenciais de jornalista, apenas uma carteira de estudante da FCS, visitamos o Engenho de Dentro. A verdade é que dependeríamos da receptividade dos moradores. Ponto para nós. Assim que chegamos, conhecemos seu Ferrer – “com três erres, dois no meio e um na ponta”, como ele faz questão de ressaltar. Seu Ferrer é diretor da Associação dos Aposentados e Pensionistas Ferroviários da Central do Brasil. Conversamos com ele na sede da associação. O lugar virou um canteiro de obras. À direita de quem entra, seis operários fazem buracos em volta de uma mangueira carregada. Esta área será transformada em um estacionamento, mas, por ora, os pedreiros cuidam do futuro encanamento do estádio.

E são muitos homens mesmo: mais de 1000, divididos em 32 equipes. Vêm de todos os lugares do Rio e de fora. “Tem muito baiano, olha um ali!”, aponta um dos operários, vestido com um macacão “laranja-César-Maia”, que os difere ao longe. Trabalham 10 horas por dia, de 7h30 às 17h30 e boa parte vem de trem. Eles dizem que o ritmo da obra foi acelerado recentemente e a previsão é de que o estádio esteja pronto em março.

Fogo na estação

Bem à frente, existe uma construção velha que abriga uma cozinha industrial e um refeitório. Nas panelas havia um grude, uma sobra de qualquer coisa que tinha sido deixada ali. A geladeira era azul clara e arredondada nas pontas, saída dos anos 50. Da janela da cozinha, uma vista privilegiada da obra, que parece começar exatamente daquele ponto. São tratores, escavadeiras, caminhões, todo esqueleto do estádio, terra revirada, lama e homens, muitos homens. Tudo ali no quintal da associação.

Seu Ferrer nos falava da dúvida quanto à localização da nova sede, quando um transformador da estação de trem, que fica bem em frente, estourou. “Eu nunca vi isso acontecer”, disse amedrontado, nos aconselhando a sair de perto do fogaréu. O barulho era alto e inconstante e só parou quando cortaram a luz da estação. Passado o susto, o aposentado nos recomendou uma visita ao Sr Fraga, morador do conjunto habitacional no território contíguo ao estádio.

A polêmica do condomínio

São seis prédios de três andares cada, a fachada é de pó de pedra e, à frente, há um pequeno jardim, mais ou menos florido, de acordo com a dedicação dos moradores. Sr Fraga mora logo no primeiro portão, mas ele não estava em casa. Em seu lugar, conversamos com dona Terezinha, sua esposa.

É uma senhora de sorriso fácil, olhos bem azuis e cabelos brancos. Seu rosto redondo e sua roupa simples escondiam a vaidade de uma dona de casa de 59 anos que reza para se mudar do prédio onde mora para uma casa com piscina, “mesmo que seja de 500 litros. Só pra refrescar o calor”. Ela e seu Fraga são uns dos moradores mais antigos do condomínio dos ferroviários. Desde que a obra começou, o lugar está ameaçado de desapropriação para fazer parte do complexo do estádio. Dona Terezinha nos contou que embora nunca tenha havido um comunicado oficial da Prefeitura, alguns técnicos vieram aos apartamentos e fizeram medições.

Diante da possibilidade que se desenhava, a vizinhança ficou dividida. Uma comissão foi, então, formada pelos que eram contrários à desapropriação. Mesmo não sendo uma posição unânime entre os condôminos, foram até a Prefeitura e apresentaram um abaixo-assinado manifestando a vontade de alguns em ficar. Como dona Terezinha, muitos querem sair dali, “quase a maioria”, garante a dona de casa. Seu vizinho, Oséias Pereira, de 49 anos, com as mãos ainda sujas do carro que consertava, concordou com Dona Terezinha e disse que sua esposa gostaria muito de se mudar. Mas, o futuro do condomínio é ainda incerto, pois a desapropriação é possível até três meses antes do PAN.

“Fiquei na parte nobre. A entrada das autoridades e da

imprensa fica aqui coladinha no meu portão”.

D. Terezinha, moradora do conjunto habitacional.

O prédio nunca passou por uma reforma desde que foi entregue, pessoalmente, por Getúlio Vargas aos ferroviários. Somado a isso, os moradores vivem agora os transtornos dessa grande empreitada. A maioria das pessoas que entrevistamos também se queixa, do aumento de mosquitos, do barulho e da poeira, que deixa os quintais “brancos” todos os dias, e que faz a tristeza dos alérgicos, como Dona Terezinha. Ela teme que a movimentação nos dias de jogos vá transformar a frente do prédio em um estacionamento e seu portão em um mictório. A senhora nos revela também, o que fica claro nas fotos tiradas no local: ela se sente espremida pela construção. Aos fundos de todos os prédios desse entorno, pudemos ver os muros e por trás deles, tratores, guindastes e máquinas que se erguem logo ali, compondo um retrato que traduz bem o bairro nesse período de reforma para o PAN. A dona de casa, entretanto, não perde o senso de humor e diz que é uma privilegiada: “Fiquei na parte nobre. A entrada das autoridades e da imprensa fica aqui coladinha no meu portão”.

Falta de segurança

A unanimidade que não existe quanto à situação do condomínio, acontece quando o assunto é segurança. Todos os moradores que abordamos reclamam do aumento do número de assaltos na região ao redor do estádio. É o caso do Sr Wellington que, na manhã daquele feriado, caminhava pelo meio da rua com um saco de pães quentes. Foi ele quem nos abordou – de brincadeira, que fique claro - para 'pedir pedágio' das fotografias que tirávamos. De todos os transtornos causados pela obra, é a segurança sua queixa mais forte. “Até bolsa de supermercado estão roubando”, afirmou o bombeiro Carlos César.

Outra reclamação que Sr Wellington fez questão de ressaltar foi a desorganização da obra: “Interditam os dois lados da calçada ao mesmo tempo e a gente é obrigado a andar pela rua!”. A 100 metros de onde o encontramos, um imenso buraco ladeado por cavaletes ocupa boa parte do que era, há semanas, um largo cruzamento. Bem em frente à cratera, encontra-se o mercadinho da Nice, uma mulher de meia-idade que segurava seu neto no colo. Mas para ela a obra não causa muitos problemas, já que, “sempre vale a pena o transtorno porque acaba melhorando o bairro”. Contudo, é só tocar no assunto segurança que Dona Nice muda de opinião. Ela e o filho, Cândido Mendes, que também trabalha no estabelecimento, concordam que os assaltos na região aumentaram após as obras. E o próprio mercadinho já sofreu a ação dos bandidos. Em compensação, o movimento da loja aumentou, devido à presença dos trabalhadores na construção do estádio. Cândido Mendes ressalta, no entanto, que a melhor época para vender é agora: “Quando a obra acabar, só vai ter movimento em dias de evento”.

Opiniões divididas

Dentre os comerciantes, há quem não veja a hora de deixar o bairro. É o caso de seu Álvaro, 78 anos, dono de um boteco situado do outro lado da linha do trem. Com uma atmosfera escura, o chão coberto por gastos ladrilhos vermelhos e prateleiras com cachaças de todos os tipos, seu Álvaro está passando o ponto por vinte mil reais com tudo dentro. “Só de mercadoria tem dez mil”, assegura o comerciante. No balcão onde fomos atendidas, jazia um pão com ovo frito ao lado de um prato com ovos cozidos e ainda duas meias lingüiças que pareciam estar ali desde que seu Álvaro chegou de Portugal. Ele alega que quer sair o quanto antes porque, com o Engenhão, “vai vir o que presta e o que não presta”. Mas da cozinha, uma senhora corpulenta, enxugando as mãos, disse: “Não, queridas, ele quer é se aposentar mesmo. Já tá cansado”. Era Dona Marlene, que desmentia o marido. No fundo, no fundo, o casal crê que a obra trará melhorias para o bairro, mas não querem ficar ali para ver. Esta sensação de melhoria é compartilhada por cada um dos moradores que conversamos. Até o padre da paróquia acredita nisso. Sua igreja já completou 70 anos e, com a obra, acredita que o número de fiéis vá aumentar. Assim, pleiteia uma reforma da fachada na prefeitura.

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“Vai vir o que presta e o que não presta.”

Seu Álvaro, dono de bar.

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Alheio a toda esta movimentação está seu Manoel, comerciante aposentado, 90 anos, um dos patriarcas do bairro. Ele mora no terceiro andar de um prédio de esquina que ele mesmo construiu, no quarteirão em frente ao estádio. O edifício fica sobre um botequim e um pet shop, que ocupam hoje o espaço onde era o seu armazém. O estabelecimento levava o nome de sua santa de devoção e o apelido que até hoje o acompanha: Santa Rita. Ele quase não sai de seu apartamento e, a princípio, não queria descer, tampouco nos deixava subir. A impressão de mau acolhimento se desfez com o primeiro sorriso de um senhor de cabeça branca, que se escorava na porta por conta de uma dor nos joelhos. Seu Santa Rita não se importa muito com a obra que acontece ali, do outro lado da rua. O incômodo mesmo vem do cheiro e dos latidos dos cães do inquilino. Sua história de vida, todavia, se confunde com a do Engenho de Dentro e deu insumos que tornaram esta matéria possível. Seu Manoel Santa Rita, no entanto, é outra história.

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30.12.06

De olho no Arpoador

Projeto de revitalização prevê instalação de câmeras de segurança em diversos pontos
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por Rafael Fontes
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No verão, o Arpoador estará de câmera nova. Ou melhor, oito. Espalhadas ao longo da praia e das proximidades do Parque Garota de Ipanema, elas vão ajudar na segurança e servir de fonte de informação para banhistas e surfistas checarem as condições do mar antes do mergulho. As imagens poderão ser vistas pela Internet. A previsão é que o sistema esteja em pleno funcionamento após o Carnaval. A novidade é apenas uma parte do projeto de revitalização do Arpoador, criado pelo publicitário Klaus Benecke Rabello e apresentado à Prefeitura do Rio. Estimada em R$ 2,5 milhões, a iniciativa deve beneficiar 3 mil pessoas que circulam diariamente pelo local.

A vegetação original de restinga já está sendo replantada na área da pedra. Um jardineiro cuida do local três vezes por semana. Oficinas gratuitas de ioga já acontecem e outras, de capoeira, tai-chi-chuan e inclusão digital, estão sendo organizadas. Também se pretende fazer shows de MPB e Bossa Nova dentro do Garota de Ipanema, a partir do ano que vem. "Queremos uma ocupação produtiva daquela parte da cidade", explica Klaus.

O publicitário agora busca parcerias e autorizações do poder público para fazer obras como a reforma da pista de skate, a troca do saibro da praça e a colocação de grade em volta do parque. Para o presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães, ações de revitalização são importantes. Ele destaca, porém, que é preciso cuidar da estrutura antes de realizar outras atividades. "O local tem potencial turístico e uma bela vista, mas não há iluminação nem segurança para receber as pessoas", criticou. Por isso, as câmeras estarão ligadas a computadores do 23º BPM (Leblon).
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Moradores e freqüentadores do Arpoador, como o músico Oswaldo Montenegro, aprovaram as novidades. "Em princípio, a idéia de revitalizar é boa. É válida qualquer idéia que movimente culturalmente o Arpoador e a cidade como um todo", destacou. O subprefeito da Zona Sul, Mario Felippo, diz que vê o projeto com bons olhos, mas avisa que algumas propostas ainda estão sendo analisadas.
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