Da Fresta: Luta de Davi contra Golias

8.12.06

Luta de Davi contra Golias

por Vanessa Franquilino

De fala mansa e sotaque do interior, o repórter Raimundo Rodrigues Pereira, abalou as estruturas da grande mídia ao revelar recentemente os bastidores da divulgação das fotos do dinheiro do caso dossiê, que levou a eleição presidencial ao segundo turno.

Raimundo Pereira tem uma história profissional surpreendente: é formado em Física pela USP, no entanto seus cabelos brancos contam a história de 41 anos de jornalismo militante. Editou a revista Veja na década de 60 e trabalhou na Realidade na década de 70, hoje edita o especial Retratos do Brasil, da Oficina de Informação.

O repórter nascido em Exu, Pernambuco, assumiu uma peleja: desafiou o “papa” da Rede Globo, Ali Kamel, a se explicar sobre a cobertura do caso dossiê. Ele mesmo reconhece que é uma luta de Davi contra Golias

Nesta entrevista exclusiva, Raimundo fala da sua trajetória, opina a sobre jornalismo alternativo e militância política além de dar detalhes sobre a sua reportagem dos bastidores da mídia.

Como começou sua trajetória no jornalismo?
Entrei no Ita por estudo, entrei no jornalismo por acidente. Fiz jornalismo estudantil, mas fui expulso da escola de engenharia em 64 e vivia de dar aulas particulares de matemática. Eu dava aulas de matemática para o diretor de redação de uma revista chamada “Médico Moderno”. Ele perguntou se eu conhecia alguém para trabalhar na revista e eu disse que eu poderia trabalhar, porque estava sem emprego. Aprendi a escrever a máquina no final de semana e comecei a trabalhar lá dia 1º de janeiro de 65. Também tentei ser escritor, mas não deu certo.

E a sua atuação no jornalismo de militância política?
Na minha época, todo o mundo tinha uma militância fora do emprego. Concluí o curso de física na USP, participei de um semanário alternativo chamado “Amanhã”. Depois, fui ser editor de ciências, em 1968. Depois, virei editor de política. Cobrimos a sucessão do general Costa e Silva. Era um momento de censura, então ia uma equipe para cada lado. Depois fui para a revista “Realidade”. Não muito contente com a imprensa, fui chamado para fazer o semanário de oposição ao regime militar no “Opinião”, fui editor, era bem sofisticado, trabalhei com o grande jornalista Paulo Francis, relatamos fatos internacionais com o pessoal do “Le Monde”, foi um jornal muito importante. Geraldo Silva, que hoje está na Globo, era nosso repórter de polícia. Mais tarde, fizemos um outro semanário chamado “Movimento”, numa campanha mais popular. Trabalhei na Veja muito tempo como freelancer, também trabalhei na Istoé. Vou fazer 41 anos de carreira no jornalismo profissional, grande parte na imprensa alternativa e grande parte na imprensa das grandes empresas.

Qual a sua opinião sobre o jornalismo alternativo de hoje?
Eu trabalhei no “Movimento” era maior que a “Carta Capital” em termos de recursos materiais, apesar dos salários no “Movimento” serem mais baixos. Essa unidade do movimento popular em torno de um órgão importante não existe hoje. Eu trabalho no “Oficina de Informações”, que é cinco ou dez vezes menor do que foi o “Movimento”, “Caros Amigos” e “Brasil de Fato” idem. Este jornalismo existe hoje, mas ele não está unificado para desempenhar um papel político na concepção e luta de idéias.

Como foi a apuração da matéria da divulgação do caso dossiê?
Em relação ao caso dossiê, um parente meu me contou a história de que, quando a Globo chegou, já estava lá o carro do Alkmin e do Serra. Peguei o telefone e liguei para uma pessoa do Maranhão e para esse parente meu, para pegar mais detalhes. Eu ia votar nulo no 1º turno, para deixar crescer esse descontentamento com o governo, que faz bem. Mas, eu tava vendo crescer a direita. E eu pensei que esse acidente da Gol fosse desempenhar um papel político positivo, desviando a atenção da opinião pública, que foi insuflada por esse fato. Foi estranho, porque o Jornal Nacional não deu. Nesse contexto eu liguei pro Mino Carta e a notícia também tinha chegado a ele. Na segunda-feira, ele me escalou para fazer a matéria. Fui atrás e, apesar dos poucos recursos que temos, a matéria ficou boa. Fizeram uma carta, assinada pela Rede Globo, contra mim. Mas, eles não desmentem o que deveriam. A idéia dessa matéria foi responder as coisas principais. Eu fiz a primeira investigação, mas agora têm novos fatos.

Sua opinião sobre a imprensa hoje.
A imprensa é um instrumento a serviço de determinados interesses. Hoje, a imprensa é um instrumento de entretenimento de manter determinadas convicções com base em palpites. Cancelei a minha assinatura no Jornal O Globo, por que eu não agüento mais. Se eles fossem conservadores, mas respeitassem a opinião alheia... Eles não respeitam, o problema é que eles não tem vergonha.

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