Da Fresta: Dentro do engenho, fora do Engenhão

9.1.07

Dentro do engenho, fora do Engenhão

Por Carolina Peixe,
Carolina Silva e Patrícia Gomes
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Quase diariamente os jornais fazem uma cobertura sobre o Pan 2007. As matérias batem na mesma tecla: obras atrasadas. Uma delas é o “Engenhão”. Quem passa em determinado ponto da Linha Amarela já pode avistar duas imensas estruturas de ferro por cima do estádio. Ao ver a empreitada ainda longe de terminar, pode passar um friozinho na barriga - “será que vai ficar pronto?”. Mas se a pessoa que passa pela mesma Linha Amarela for um morador do Engenho de Dentro, a pergunta talvez seja: “Em que isso tudo vai dar?”.

Fomos conferir, então, como esse bairro da Zona Norte carioca tem se comportado com a construção do que será o segundo maior estádio do Rio de Janeiro. Sem credenciais de jornalista, apenas uma carteira de estudante da FCS, visitamos o Engenho de Dentro. A verdade é que dependeríamos da receptividade dos moradores. Ponto para nós. Assim que chegamos, conhecemos seu Ferrer – “com três erres, dois no meio e um na ponta”, como ele faz questão de ressaltar. Seu Ferrer é diretor da Associação dos Aposentados e Pensionistas Ferroviários da Central do Brasil. Conversamos com ele na sede da associação. O lugar virou um canteiro de obras. À direita de quem entra, seis operários fazem buracos em volta de uma mangueira carregada. Esta área será transformada em um estacionamento, mas, por ora, os pedreiros cuidam do futuro encanamento do estádio.

E são muitos homens mesmo: mais de 1000, divididos em 32 equipes. Vêm de todos os lugares do Rio e de fora. “Tem muito baiano, olha um ali!”, aponta um dos operários, vestido com um macacão “laranja-César-Maia”, que os difere ao longe. Trabalham 10 horas por dia, de 7h30 às 17h30 e boa parte vem de trem. Eles dizem que o ritmo da obra foi acelerado recentemente e a previsão é de que o estádio esteja pronto em março.

Fogo na estação

Bem à frente, existe uma construção velha que abriga uma cozinha industrial e um refeitório. Nas panelas havia um grude, uma sobra de qualquer coisa que tinha sido deixada ali. A geladeira era azul clara e arredondada nas pontas, saída dos anos 50. Da janela da cozinha, uma vista privilegiada da obra, que parece começar exatamente daquele ponto. São tratores, escavadeiras, caminhões, todo esqueleto do estádio, terra revirada, lama e homens, muitos homens. Tudo ali no quintal da associação.

Seu Ferrer nos falava da dúvida quanto à localização da nova sede, quando um transformador da estação de trem, que fica bem em frente, estourou. “Eu nunca vi isso acontecer”, disse amedrontado, nos aconselhando a sair de perto do fogaréu. O barulho era alto e inconstante e só parou quando cortaram a luz da estação. Passado o susto, o aposentado nos recomendou uma visita ao Sr Fraga, morador do conjunto habitacional no território contíguo ao estádio.

A polêmica do condomínio

São seis prédios de três andares cada, a fachada é de pó de pedra e, à frente, há um pequeno jardim, mais ou menos florido, de acordo com a dedicação dos moradores. Sr Fraga mora logo no primeiro portão, mas ele não estava em casa. Em seu lugar, conversamos com dona Terezinha, sua esposa.

É uma senhora de sorriso fácil, olhos bem azuis e cabelos brancos. Seu rosto redondo e sua roupa simples escondiam a vaidade de uma dona de casa de 59 anos que reza para se mudar do prédio onde mora para uma casa com piscina, “mesmo que seja de 500 litros. Só pra refrescar o calor”. Ela e seu Fraga são uns dos moradores mais antigos do condomínio dos ferroviários. Desde que a obra começou, o lugar está ameaçado de desapropriação para fazer parte do complexo do estádio. Dona Terezinha nos contou que embora nunca tenha havido um comunicado oficial da Prefeitura, alguns técnicos vieram aos apartamentos e fizeram medições.

Diante da possibilidade que se desenhava, a vizinhança ficou dividida. Uma comissão foi, então, formada pelos que eram contrários à desapropriação. Mesmo não sendo uma posição unânime entre os condôminos, foram até a Prefeitura e apresentaram um abaixo-assinado manifestando a vontade de alguns em ficar. Como dona Terezinha, muitos querem sair dali, “quase a maioria”, garante a dona de casa. Seu vizinho, Oséias Pereira, de 49 anos, com as mãos ainda sujas do carro que consertava, concordou com Dona Terezinha e disse que sua esposa gostaria muito de se mudar. Mas, o futuro do condomínio é ainda incerto, pois a desapropriação é possível até três meses antes do PAN.

“Fiquei na parte nobre. A entrada das autoridades e da

imprensa fica aqui coladinha no meu portão”.

D. Terezinha, moradora do conjunto habitacional.

O prédio nunca passou por uma reforma desde que foi entregue, pessoalmente, por Getúlio Vargas aos ferroviários. Somado a isso, os moradores vivem agora os transtornos dessa grande empreitada. A maioria das pessoas que entrevistamos também se queixa, do aumento de mosquitos, do barulho e da poeira, que deixa os quintais “brancos” todos os dias, e que faz a tristeza dos alérgicos, como Dona Terezinha. Ela teme que a movimentação nos dias de jogos vá transformar a frente do prédio em um estacionamento e seu portão em um mictório. A senhora nos revela também, o que fica claro nas fotos tiradas no local: ela se sente espremida pela construção. Aos fundos de todos os prédios desse entorno, pudemos ver os muros e por trás deles, tratores, guindastes e máquinas que se erguem logo ali, compondo um retrato que traduz bem o bairro nesse período de reforma para o PAN. A dona de casa, entretanto, não perde o senso de humor e diz que é uma privilegiada: “Fiquei na parte nobre. A entrada das autoridades e da imprensa fica aqui coladinha no meu portão”.

Falta de segurança

A unanimidade que não existe quanto à situação do condomínio, acontece quando o assunto é segurança. Todos os moradores que abordamos reclamam do aumento do número de assaltos na região ao redor do estádio. É o caso do Sr Wellington que, na manhã daquele feriado, caminhava pelo meio da rua com um saco de pães quentes. Foi ele quem nos abordou – de brincadeira, que fique claro - para 'pedir pedágio' das fotografias que tirávamos. De todos os transtornos causados pela obra, é a segurança sua queixa mais forte. “Até bolsa de supermercado estão roubando”, afirmou o bombeiro Carlos César.

Outra reclamação que Sr Wellington fez questão de ressaltar foi a desorganização da obra: “Interditam os dois lados da calçada ao mesmo tempo e a gente é obrigado a andar pela rua!”. A 100 metros de onde o encontramos, um imenso buraco ladeado por cavaletes ocupa boa parte do que era, há semanas, um largo cruzamento. Bem em frente à cratera, encontra-se o mercadinho da Nice, uma mulher de meia-idade que segurava seu neto no colo. Mas para ela a obra não causa muitos problemas, já que, “sempre vale a pena o transtorno porque acaba melhorando o bairro”. Contudo, é só tocar no assunto segurança que Dona Nice muda de opinião. Ela e o filho, Cândido Mendes, que também trabalha no estabelecimento, concordam que os assaltos na região aumentaram após as obras. E o próprio mercadinho já sofreu a ação dos bandidos. Em compensação, o movimento da loja aumentou, devido à presença dos trabalhadores na construção do estádio. Cândido Mendes ressalta, no entanto, que a melhor época para vender é agora: “Quando a obra acabar, só vai ter movimento em dias de evento”.

Opiniões divididas

Dentre os comerciantes, há quem não veja a hora de deixar o bairro. É o caso de seu Álvaro, 78 anos, dono de um boteco situado do outro lado da linha do trem. Com uma atmosfera escura, o chão coberto por gastos ladrilhos vermelhos e prateleiras com cachaças de todos os tipos, seu Álvaro está passando o ponto por vinte mil reais com tudo dentro. “Só de mercadoria tem dez mil”, assegura o comerciante. No balcão onde fomos atendidas, jazia um pão com ovo frito ao lado de um prato com ovos cozidos e ainda duas meias lingüiças que pareciam estar ali desde que seu Álvaro chegou de Portugal. Ele alega que quer sair o quanto antes porque, com o Engenhão, “vai vir o que presta e o que não presta”. Mas da cozinha, uma senhora corpulenta, enxugando as mãos, disse: “Não, queridas, ele quer é se aposentar mesmo. Já tá cansado”. Era Dona Marlene, que desmentia o marido. No fundo, no fundo, o casal crê que a obra trará melhorias para o bairro, mas não querem ficar ali para ver. Esta sensação de melhoria é compartilhada por cada um dos moradores que conversamos. Até o padre da paróquia acredita nisso. Sua igreja já completou 70 anos e, com a obra, acredita que o número de fiéis vá aumentar. Assim, pleiteia uma reforma da fachada na prefeitura.

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“Vai vir o que presta e o que não presta.”

Seu Álvaro, dono de bar.

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Alheio a toda esta movimentação está seu Manoel, comerciante aposentado, 90 anos, um dos patriarcas do bairro. Ele mora no terceiro andar de um prédio de esquina que ele mesmo construiu, no quarteirão em frente ao estádio. O edifício fica sobre um botequim e um pet shop, que ocupam hoje o espaço onde era o seu armazém. O estabelecimento levava o nome de sua santa de devoção e o apelido que até hoje o acompanha: Santa Rita. Ele quase não sai de seu apartamento e, a princípio, não queria descer, tampouco nos deixava subir. A impressão de mau acolhimento se desfez com o primeiro sorriso de um senhor de cabeça branca, que se escorava na porta por conta de uma dor nos joelhos. Seu Santa Rita não se importa muito com a obra que acontece ali, do outro lado da rua. O incômodo mesmo vem do cheiro e dos latidos dos cães do inquilino. Sua história de vida, todavia, se confunde com a do Engenho de Dentro e deu insumos que tornaram esta matéria possível. Seu Manoel Santa Rita, no entanto, é outra história.

1 Opiniões:

Blogger huhushanzhi said...

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6:12 AM  

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