Da Fresta: Pequenas sobreviventes do tempo

6.2.07

Pequenas sobreviventes do tempo

Por Patrícia Gomes
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O século XXI mal chegou e já tem características bastante específicas. São aparatos tecnológicos, cada vez menores e com mais funções, automóveis e todo o tipo de aparelhos que se valem dos avanços da microinformática e da microeletrônica. Nesse mundo marcado também pela globalização que encurta tempo e distância, tudo o que é antigo tende a desaparecer, certo?
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Errado. Prova disso são as pequenas profissões presentes nas primeiras décadas do século XX que ainda dão o ar de suas graças. É verdade que daquele tempo, muitas não resistiram às novas exigências do mundo moderno e desapareceram. Outras estão quase lá. Mas algumas chegaram até se fortalecer.
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Profissionais como o tripeiro – que tem de lidar com a concorrência dos grandes mercados e com a fiscalização da vigilância sanitária – a professora de datilografia, o médico de bonecas e o lambe-lambe engrossam a lista dos ofícios que jazem com dificuldades de se adaptar em um mundo tomado por necessidade de inovações tecnológicas. No Largo do Machado, esporadicamente, o lambe-lambe Pedro monta seu equipamento e tira fotografias. Recentemente, ele foi elevado a patrimônio cultural da cidade e agora, para aumentar a renda, cobra para dar entrevistas.
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Outros ofícios, no entanto, resistem ao tempo. Neste rol pode-se encontrar o reformador de pianos, o vassoureiro, o empalhador de cadeiras e, é claro, a profissão mais antiga do mundo, a prostituta.
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A professora de datilografia
Dona Olga Rocha tem 70 anos e é professora de datilografia desde 1957, quando abriu o Curso Olavo Bilac em Marechal Hermes. Há dois anos seu curso está abrigado em uma construção, perto do centro histórico do bairro. Tem uma ante-sala, uma sala e “um pedacinho lá atrás”, como explica dona Olga.
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A sala do curso de datilografia foi tomada, há oito anos, por microcomputadores, mas ainda abriga quatro máquinas que ficam cobertas, esperando por alunos. “Esse ano (2006) eu não tive aluno. Ano passado eu tive... três”, relata a professora com certo pesar. Ela lembra do tempo que mal tinha tempo de almoçar: “Já cheguei a ter 100 alunos por dia”, diz, orgulhosa, dona Olga. Nessa época, tinha 16 máquinas e dava aulas de 8h às 22h todos os dias.
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Um interessado a aprender a datilografar passa, em média, três meses no curso. As aulas são diárias, a duração de uma hora e o custo de R$50. Dona Olga explica que datilografia depende de vocação “tem gente que bate muito bem, tem gente que não”, mas que qualquer um pode se sair bem com um pouco de dedicação. “Datilografia não são os dedos, é a cabeça”, resume.
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Até a década de 80 a demanda era grande porque os concursos públicos da Polícia Civil, de escrivão de cartório, do TRE e do Banerj tinham provas de datilografia que exigiam rapidez e poucos erros. Olga define sua quase inexistente clientela hoje: “Quem mais procura são pais que tiveram aula comigo e gostariam que seus filhos aprendessem. Mas eles acabam não voltando”. Se alguma de suas máquinas dá problema, dona Olga recorre ao único técnico mecanógrafo que conhece, também morador de Marechal Hermes.
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A professora acha “uma pena” que não haja mais interesse em aprender datilografia e considera que os profissionais que agora estão se formando se sairiam melhor em suas atividades se soubessem datilografar. Mas, lamenta-se: “Hoje em dia, as pessoas se ofendem se a gente diz que seria bom fazer um curso de datilografia”.
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O serviço de datilografia no curso, hoje, se resume a escrita de declarações e preenchimento de formulários ou cheques. “O Ministério do Trabalho, ali na frente, tem um carnê que o empregador nunca coloca o número um no espaço certo. Eu já até sei. Nem cobro pelo serviço”. Precavida, dona Olga diz que vai diversificar o curso: “Já temos informática e agora vamos abrir um curso de imobilização ortopédica porque o Carlos Chagas (Hospital Municipal em frente) está exigindo”.


O Reformador de Pianos
Em francês, essa profissão leva o nome de lutier e, em português, por falta de tradução, é reformador de pianos mesmo. Muito comum na época em que o Rio de Janeiro mantinha um circuito de salões e recepções para a alta sociedade, hoje os profissionais que se dedicam a consertar pianos são circunscritos apenas ao mundo dos músicos.
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Um exemplar desta raridade é o senhor José da Gama, proprietário de uma oficina de pianos em Quintino Bocaiúva, bairro do subúrbio carioca. Trata-se de um sobrado do início do século XX, de paredes descascadas e de pé-direito alto em frente à estação de trem. O letreiro “O Rei dos Pianos”, já sem cor, não é capaz de revelar o espaço que a loja, fundada em 1938, esconde. No primeiro ambiente que, à primeira vista, parece ser o único, 10 pianos se encontram dispostos de maneira aleatória e não há distinção entre os reformados ou por reformar, entre os que estão ali para serem vendidos, alugados ou entregues a seus donos.
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Por um estreito corredor que se revela bastante comprido, se vêem salas onde são feitos trabalhos específicos. A primeira é a administração. Depois vem outra onde se conserta o maquinário do piano e uma terceira onde se enverniza as partes de madeira. No fim do corredor, percebe-se um cofre e uma máquina de bater ponto que, conforme garante Wallace Matos, administrador da loja, “não são usados há muito tempo. Estão aí só por estar”.
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O corredor desemboca em um galpão onde aproximadamente 50 pianos desmontados sofrem todo o tipo de reparos. À direita, uma outra sala, também apinhada deste instrumento, mantém a atmosfera escura de toda a loja. Ao todo são 10 funcionários. O senhor José da Gama diz que, como não tem lugar onde se aprenda o ofício, “um ensina para o outro” e aponta para um rapaz que segue o afinador a tira-colo.
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O lutier de Quintino conta que passou metade de sua vida – 32 de seus 63 anos – n’O Rei dos Pianos, mas lembra quando jovem, também se dedicava ao instrumento. Não que ele tenha aprendido a tocar piano na infância, mas porque trabalhou numa transportadora de pianos antes de ingressar na loja. Seu filho Marcelo também trabalha na oficina: “Desde menino eu ando por aqui!”.
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Seu José da Gama diz que, há 50 anos, o ramo de pianos era mais lucrativo: “Hoje o teclado e o piano eletrônico têm mais recursos e não precisa de tanto esforço”. Ainda assim, orgulha-se de tocar um negócio “100% artesanal” e cuja maior publicidade é o famoso “boca a boca”. Para o lutier, o segredo da sua loja está na credibilidade e na verdade. “O meu serviço é de qualidade porque meus produtos também são. Gerações de famílias são clientes nossos”.


O empalhador de cadeiras
O empalhador de cadeiras Luis, que tem um ponto fixo no Largo do Machado, garante que sua profissão não está acabando. “Logo ali tem outro”, e aponta para um outro senhor, sentado a menos de 20 metros, na mesma calçada. Gaba-se de ter dado entrevista a uma revista que é distribuída gratuitamente pelo Museu da República e que teve uma versão em inglês enviada aos Estados Unidos.
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Segundo Luis, empalhador há mais de 20 anos, o Rio de Janeiro é o estado que mais tem empalhadores de cadeiras. Ele trabalha na rua e diz que sempre tem serviço. Quando perguntado se sua profissão foi mais lucrativa no passado, ele diz que sim, mas não pode se queixar, porque sempre tem cliente. Para uma cadeira apenas com o assento a ser refeito, o freguês paga, em média, 60 reais. Se o encosto também precisar ser recuperado, o valor dobra.
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Luis leva todos os apetrechos que precisa em uma maleta não muito grande. Lá ele tem fios de diversas espessuras e alicates. Trabalha ali na calçada mesmo e, no final do dia, guarda as peças que está reformando “num cantinho aqui perto. Depois eu vou para casa!”.


O Hospital Mundial de Bonecas
O hospital de bonecas funciona na rua que beira a linha principal de trem do Rio de Janeiro e fica entre as estações de Oswaldo Cruz e Madureira. No balcão, a senhora Elizeth Rosa, 71 anos, recebe as bonecas para seu marido e seus filhos consertarem. O negócio foi aberto há 50 anos pelo seu esposo e um amigo, já que ambos trabalhavam em uma conhecida fábrica de brinquedos.
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A oficina fica no final do terreno que, do balcão, parece ser bem grande. “Aquilo é uma bagunça, não tem nada de bonito pra ver não”, encerra Elizeth, a possibilidade de uma visita ao ateliê. Lá, seu marido substitui peças quebradas, coloca cabelo, olhos e, com a ajuda da filha, restaura pinturas.
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Dona Elizeth conta que já chegou a ter quatro empregados, mas hoje o trabalho é feito em família. Ela lembra que, no passado, havia mais serviço. “Hoje a gente recebe umas cinco freguesas por dia”, mas garante que elas ficam muito satisfeitas em ver o resultado. No panfleto do Hospital, em meio aos serviços que se presta, lê-se “Não deixe um brinquedo que você ganhou com tanto carinho cair no esquecimento e se acabar. Traga que nós consertamos para manter viva [sic] as boas lembranças”.
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A reformadora mostra, orgulhosa, uma condecoração que seu Hospital Mundial de Bonecas recebeu da Câmara dos vereadores do Rio de Janeiro em abril de 1988. Já amarelado, o documento diz: “O delicado e artístico trabalho a que se dedicam Elizeth e seus familiares têm um elevado alcance de cunho psicológico e social, o que os torna merecedores desta proposição”. A homenagem chama o serviço do hospital de um “valioso trabalho” que “serve ao apego de pessoas idosas e ao sonho e imaginação de crianças e jovens que amam e vivem esses brinquedos, ao encher de afeto e fantasia a vida de muitas pessoas”.


O Vassoureiro
“É o vassoureiro. Olha a vassoura aí, freguesa! Tem piaçava, tem de pêlo, tem rodo, tem limpador de teto”. É Marco Antônio de Azevedo, 31 anos, quem interrompe o silêncio de uma pacata rua de Vila Valqueire com esse grito que tem sido ouvido por gerações e ainda hoje é comum nos bairros do subúrbio carioca.
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Marco Antônio Azevedo é vassoureiro há três anos, tem a fala polida e calma. Ele diz ter sido levado para o ‘ramo das vassouras’ por um amigo que lhe explicou como fazer, onde comprar e até como amarrar as vassouras do método mais prático e seguro. Outro fator determinante para ter escolhido a profissão foi o lucro rápido. De cabeça, apresenta suas contas: “Se eu trabalho 26 dias no mês, de segunda a sábado todos os dias, ganho, em média R$1200”.
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Fora o que chama de “peças finas” – os limpadores de teto, a vassoura de pêlo de cavalo e o rodo – Marco Antônio carrega 24 vassouras de piaçava por dia e precisa de quatro horas para vender todas. “Às vezes mais, às vezes menos, mas nunca vou pra casa depois das 14h”, conta o vassoureiro, que sai de casa às 6h, vai à fábrica comprar material e começa a vender por volta das 8h ou 9h.
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Evangélico convicto, Marco Aurélio diz que o ofício lhe deu uma dor insuportável na coluna, mas garante que sua fé lhe curou. O vassoureiro confessa que não pode reclamar do salário e garante que tem sempre alguém precisando de uma vassoura e, por isso, “tem muito vassoureiro por aí”. Ele se mostra contente com a profissão, mas conta que quer fazer uma faculdade: “O meu dom é o de vendas. Quero fazer engenharia ou alguma coisa ligada a vendas mesmo”.

2 Opiniões:

Blogger dayaoyao said...

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12:27 PM  
Blogger Fabio de Araujo said...

Muito bacana o blog sobre profissões.

7:21 PM  

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